Projetando com os sentidos é um tema bastante complexo. O tema tem relação com parte da minha história, minhas buscas, descobertas e questionamentos. Esse devaneio nem sempre é fácil e sempre pouco prático para uma vida corrida na qual precisamos ser rápidos para não sermos atropelados. É quase uma questão de sobrevivência. Discorrer sobre esse tema não é assim tão simples.
Quando fui estudar arquitetura na Itália não sabia exatamente pelo o quê procurava; mas sabia que procurava algo e precisava encontrá-lo com urgência! Estava cansada de projetar sentindo-me sempre um pouco “fora”, acreditando em idéias que não sabia virem de onde? Como defendê-las? Numa sociedade onde ter é mais importante que ser é difícil aceitar o caminho a seguir. Procurava ao mesmo tempo por uma arquitetura absoluta, algo que agradasse a todos. Não era muito boa em receber crítica, portanto queria diminuir isso ao máximo! Agradar a todos era agradar a mim mesma. Que erro!
Enfim; tentando atender o problema “todos” resolvi pesquisar algo inerente ao ser humano, algo na raiz do homem, que pertencesse a cada um de nós, e a todos nós: os sentidos. O sentir e o ser, no meu ponto de vista, andam juntos, um de cavalinho no outro. Uma arquitetura mais atenta aos sentidos poderá sempre criar lugares mais emocionantes, sejam feios ou bonitos, isso importa pouco, porém, sempre com alma.
Comecei minha pesquisa no ponto-base dos cinco sentidos: visão, audição, olfato, tato e paladar. O homem percebe as sensações dos cinco sentidos conjuntamente e de uma só vez.

A partir desse princípio selecionei cinco temas dentro da arquitetura de interiores que considero básicos para a percepção do espaço:
- luz e sombra
- textura e materiais
- dimensão (altura e largura)
- cores
- presença do verde.
Fui atrás de cada um desses temas, li livros, artigos, perguntei aos professores, e a única palavra que encontrei, que pudesse concluir toda minha busca de forma absoluta numa receita perfeita, foi “depende”. Foi uma surpresa e, também, minha redenção; não havia arquitetura absoluta! Era impossível agradar a todos! Ufa...! Uma lição de vida!
Os sentidos são sim inerentes ao ser humano, mas a leitura deles é que não é. Podemos até decodificar as sensações da mesma forma, principalmente quando vivemos num mesmo país, ou numa mesma sociedade, ou numa mesma classe social, ou tudo isso junto. Quanto mais parecida for a história de um grupo, mais conseguimos generalizar alguns conceitos, nomes e sensações, mas a verdade é que cada um é um, e cada elemento tem como referência de leitura uma história diferente. O meu livro de cores começava assim “o azul gera no homem que vive no Brasil, um país tropical; sensação completamente distinta da do homem que vive na Alemanha, habituado ao frio...” Li aquilo embasbacada! Era tão óbvio assim? Por fim, resolvi me satisfazer de forma absoluta com a resposta que encontrei, mas também encontrei de maneira parcial “verdades generalizadas” que são chamadas de “universais”. Elas servem para nos dar o norte, funcionam como guia e nunca devem ser usadas de forma absoluta.
Para projetar com os sentidos, o mais importante é entender para quem o projeto está sendo feito. Quem é o cliente (ou público alvo), sua história, suas verdades, suas vontades. Como ele percebe o mundo, como lê as cores, a luz! Qual a intenção e a sensação que se pretende causar em cada espaço. O espaço serve para servir o homem, para satisfazer suas vontades, para atender suas exigências, suprir suas necessidades, acolhê-lo e protegê-lo, de forma objetiva e subjetiva. Há uma busca pelo espírito, pelas emoções e sentimentos que podem ser compreendidos através do espaço físico. O espaço interior é uma fotografia do avesso do homem e a percepção deste ajuda a atingirmos uma melhor compreensão de si mesmo.
Diante da pergunta da cliente fechei os olhos para poder responder qual piso achava melhor para sua sala, e, então, ela perguntou: “por que você fecha os olhos?” e eu respondi: “porque de olhos fechados eu vejo o que eu sinto e sinto o que eu vejo”.
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"Uma das melhores coisas na vida são as maravilhosas surpresas que nos reserva". (Marlo Thomas)
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