Sempre fui uma pessoa muito saudosista, principalmente no quesito musical. Recordo que durante boa parte da minha adolescência, enquanto minhas amigas ouviam Madonna e organizavam fã clubes para os ídolos do rock nacional, eu estava mergulhada na nostalgia de Dolores Duran, no romantismo de Orlando Silva e Nelson Gonçalves, e porque não dizer, no sofrimento de Lupicínio Rodrigues.
Nunca perdi a oportunidade de ilustrar meus trabalhos escolares sobre o folclore, com obras de Clara Nunes, Clementina de Jesus e grandes sambas enredos que relatavam nossa história através de críticas extremamente inteligentes. As canções estavam inteiramente ligadas na educação, cultura e política do nosso país. Através dela, se aprendia e se protestava.
Nelson Motta conta em seu livro “Noites Tropicais”, que se discutiam música nas esquinas como se discute futebol. Os artistas demonstravam sensibilidade e capricho na escolha de seus repertórios. Existia responsabilidade por parte das emissoras de TV e rádio. Exibiam-se atrações de qualidade sobre o tema. Quem não se recorda dos lendários festivais da Rede Record, dirigidos por Solano Ribeiro, que revelaram astros como: Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e Elis Regina?
Era clara a preocupação com o público infantil. Na década de 80, foram ao ar os inesquecíveis musicais da Rede Globo, dirigidos por Augusto César Vannucci. Por essas e outras lembranças, tem se tornado cada vez mais difícil assistir imóvel a banalização da nossa música, a deterioração da programação da TV, e o pior de tudo, o empobrecimento cultural e político de nossos jovens, salvo raras exceções.
Espero o dia em que finalmente a mídia irá assumir uma postura consciente, e perceber como seu papel é importante para a formação de grande parte da população. É lamentável saber, que existem tantos bons artistas precisando mostrar o seu talento, e muitas vezes não conseguem, por não aderirem a esse apelo vulgar tão em moda ultimamente.
Precisamos ouvir e ver coisas boas, que nos influencie positivamente de alguma maneira, que nos inspire para sermos melhores. Temos que nivelar por cima, sermos mais seletivos. É triste ver a inspiração ceder seu lugar ao desrespeito e à apelação. Lutamos para viver em um país democrático, mas deixo uma pergunta: Qual o uso que estamos fazendo da nossa tão sonhada liberdade de expressão?
Esse relato não é uma apologia à censura, nem um discurso moralista. É apenas um pedido a todos os diretores de rádio e TV, que utilizem seu bom senso na hora de produzirem seus programas. Que a indústria fonográfica tenha ao menos o cuidado de reciclar o lixo que têm nos oferecido.
Tenho pena dessa geração que não terá a chance de saber quem foi Noel Rosa, Cartola, Nelson Cavaquinho, Pixinguinha entre tantos outros mestres.
Sinto saudades sim, de uma época que não vivi, mas que muito me influenciou. Sinto saudades da poesia, da inteligência e de tudo que era bom. Sinto saudades do tempo em que não existia essa imensa e inútil feira livre, com melancias, melões, maçãs e morangos, e que a única fruta que enchia de orgulho todos nós brasileiros, eram as excêntricas bananas da nossa pequena notável Carmem Miranda.
Conheça nosso artigo: Elementos musicais.
Mariah Morais
É jornalista e escritora, atuou durante 13 anos na área esportiva. Aqui no Brasil ela quebrou tabu ao se tornar a primeira mulher a comentar partidas de futebol em rádio e TV. Nesse tempo trabalhou em grandes emissoras e cobriu os mais importantes torneios.
"A autencidade é a maior diferença entre os que são,e os que tentam ser".
(Jayme Caetano Braun)
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