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Atributos de Pai - um tipo inesquecível

Atributos de Pai - um tipo inesquecível

Enfatizou-se, durante muito tempo, o papel de provedor e a contribuição à educação dos filhos. Sim, isso é de grande importância! Mas, perguntei-me, as razões pelas quais eu havia sido tão apaixonada pelo meu pai!

Como estudei em ótimas escolas públicas, o sentimento predominante não era o de gratidão pelos seus gastos mensais na minha educação. Eu queria acertar, deixá-lo feliz e atender suas expectativas.

Eu o amei pela sua forma de ser, pelo jeito de falar comigo, pelo genuíno carinho que ele me transmitia, de maneira constante. E, naquela relação de confiança, não tive registros de ter sido humilhada,  negligenciada ou ferida por ele. Mesmo pequena, eu distinguia quando ele brincava e falava sério.

É fato, eu amei meu pai! Vivemos juntos apenas 11 anos e foi o período em que a vida fluía sobre certezas, e sobre a leveza da convivência diária; conduzida pela atenta responsabilidade de um tradicional chefe de família.

Sua morte prematura, porém, um fulminante ataque cardíaco, em menos de 50 minutos; na minha frente, marcou-me profundamente. Ele tinha apenas 57 anos.

Disseram-me depois que eu fui poupada de conhecer o seu lado mais conservador. Esposa, filhas, irmãs e mulheres da família deviam ser habilidosas nas prendas domésticas e boas donas de casa, além de ter dedicação às obras sociais. Esse era o ideal feminino e o esperado pela quase totalidade dos homens de sua geração.

Pai
Mas eu sei que teria ganho muito, se tivesse uma convivência mais longa com ele. Os ganhos emocionais de sua presença seriam armazenados para suportar as decepções futuras. Minha irmã mais velha, por exemplo, que o perdeu quando já estava casada, com 29 anos, e com filho de oito anos de idade, sentia imensa saudade, décadas depois de sua morte.

Meu pai tinha 46 anos quando ele e minha mãe decidiram ter um quarto filho; foi quando nasci. Tornou-se um pai com idade acima da média e isso não era simples como é hoje. Havia um pesado tabu da sexualidade na década de 50 e, não poucas vezes, precisei explicar que ele não era o meu avô.

O nosso sobrenome diferente mostrava a existência de múltiplas imigrações no Brasil e ninguém até hoje sabe falar, escrever ou entender de imediato. Tenho sempre que soletrar! Meu avô paterno, nascido em 1877, em território europeu, chegou ao Brasil, aos 17 anos e, após seu casamento com uma italiana, transmitiu seu sobrenome aos filhos, os quais transmitiram aos descendentes. Não é assim estruturada toda a sociedade?

Do meu pai tenho as melhores lembranças; atributos inesquecíveis:

1- era o animador das festinhas de meus aniversários, e conduzia brincadeiras com as crianças, no quintal de casa, como gincanas ou dança em torno de cadeiras;

2- trazia presentes quando voltava das viagens a São Paulo, como os lindos conjuntos de "banlon" rosa, que faziam com que eu me sentisse o máximo;

Maria Lucia Zulzke e seu pai

3- ergueu-me do chão, aos prantos, quando quebrei a perna aos 6 anos e levou-me em seus braços fortes para o médico no hospital;

4- fazia exercícios diariamente e orientava sobre a importância de sair da mesa com um pouco de fome, segredo de sua boa forma;

5- vestia calça e camisa de linho de cores claras; roupas que o deixavam com aparência "amassada" e vulnerável (eu gostava);

6- entrava no espírito das minhas brincadeiras quando eu lhe servia, "comidinhas" em panelinhas e fazia de conta que iria comer as misturas indigestas, o que me fazia gritar de alegria e, logo depois, de advertência para que não comesse;

Pai
7- definiu meu amor pela leitura quando sentou-se na minha frente, para me ouvir atentamente e ler os primeiros trechos da cartilha na minha alfabetização. Com aquela pausa em sua agenda de trabalho, fez de mim uma voraz leitora de livros, como sou até hoje;

8- ele amava minha mãe e sempre andavam de mãos dadas quando íamos passear; eu achava lindo vê-los juntos;

9- jamais me deixou ouvir um palavrão de seus lábios, ou palavras depreciativas ou ofensivas à honra de uma mulher;

10- confidenciava-me os segredos do cofre de sua loja de tecidos e mostrava-me os maços de dinheiro e as notas promissórias a serem pagas; se pedia segredo para esse nosso segredo, eu guardava com cumplicidade sorridente;

11- abriu minha caderneta de poupança, quando eu tinha 10 anos, na Caixa Econômica, ensinando- me a planejar o futuro;

12- contou para mim o código de preços de sua loja de tecidos, e ao comparar o preço de compra e de venda, em códigos, eu calculava o lucro por metro de tecido vendido, éramos bons em matemática;

13- nadava bem, pois nasceu numa pequena cidade onde havia um rio;

14- quando chegavam parentes para nos visitar e almoçar, ele escolhia o melhor peixe no mercado municipal;

15- era um marceneiro de "mão cheia", usando uma pequena marcenaria nos fundos de sua loja de tecidos, para fazer alguns móveis, inclusive meu berço de cabeceira torneada;

Eu sei que ele gostava de celebrar ocasiões significativas. No noivado de seu único filho homem, fez o pedido da mão de sua futura nora, ainda que todos dissessem ser desnecessário. Ele marcou o evento, pela graça do gesto e eu o estimulei a fazer um pequeno discurso.

Para mim, ele era especial e único. Gostava das músicas brasileiras, ouvia rádio e apreciava cantores e cantoras da sua época. Ao final das tardes de domingo, quando todos em casa preferiam descansar, ele, que não conseguia ficar muito tempo parado, convidava-me para andar e visitar a pé seus terrenos, para verificar "se não tinham saído do lugar". Brincadeira!

Pode ser que, sob os valores de hoje ou de culturas ambiciosas e audaciosas, ele tenha sido caseiro demais ou pouco aventureiro. Era um homem afável e "do bem".

Meu pai, Alberto Junior, nascido em 1905, numa cidade do interior de São Paulo, filho de uma italiana da Toscana, com o nome de uma flor, Rosa, e casado com a filha primogênita de italianos, foi um brasileiro gentil, correto e trabalhador. Tinha de família, um sobrenome difícil, e talvez, esse tenha sido um dos seus poucos defeitos, que conheci.

"A coisa mais importante que os pais podem ensinar a suas crianças é como ir em frente sem eles."
 (Frank A. Clark)

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Comentários

Existe(m) 5 comentário(s) para esta notícia.

# 1° Fernanda

LINDO!!!!!!!!!!!!

Falar sobre os pais sempre nos emociona e enche o coração de gratidão....

Parabéns!

# 2° Vania Baratella

Suas palavras fizeram me lembrar o meu pai..Me senti muito bem apesar da saudade.
Parabéns!!!

# 3° Rose Scarpelli

Amei!!!Me encantei com suas lembranças. Vc conheceu a linguagem do AMOR e me fez lembrar,com saudade,que eu tb conheci.
Parabéns!

# 4° Marina Lima

Realmente encantador...
Me fez parar e pensar que devo apreciar mais as coisas rotineiras de nossas vidas, e talvez dar ao meu pai a graça de ir pescar com ele!
Parabéns!

# 5° EVANDREO

ESTOU ESCUTANDO A MUSICA 'DO LEGIAO PAIS E FILHOS A MULHER Q AMO DORMI LER FALANDO SOBRE ISSO ME DEIXA FELIZ NAO SOU O UNICO , QUERO ESTAR DO LADO DE PESSOAS COMO VC BB, O MEU VELHO FOI EM 14 06 82 MEU ANIVERSARIO. SONHO COM O MEU velho sepre pedin do ajuda detalhe nao soi espirita mas acretito que ele torce para minha felicidade
saudade dele dentro da minha casa sinto so. perdao por ter me alongado.

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