No passado remoto, o Homem necessitava da caça e do extrativismo vegetal para sua subsistência. Assim, seu organismo sofreu adaptações essenciais para sua sobrevivência, como a capacidade de estocar energia, situação fundamental diante da escassez de alimentos a que nossos ancestrais eram submetidos.
Com o passar dos tempos, revoluções aconteceram, facilitando a vida humana. Nos dias atuais, ao contrário da escassez, há fartura de alimentos e, a atividade física intensa (representada pela caça na pré-história), deu lugar ao sedentarismo devido à urbanização.
O processamento de alimentos tornou o processo de metabolização e armazenamento de nutrientes ingeridos altamente eficazes. Assim, diante da situação em que temos um ser humano geneticamente preparado para armazenar energia, em um ambiente onde esse estoque de nutrientes não se faz mais necessário, vemos o surgimento de novas epidemias relacionadas ao estilo de vida moderno, como a obesidade, o diabetes mellitus tipo 2 e a síndrome de resistência a insulina.
Conforme orientação da Academia Americana de Diabetes (ADA), enfatizando apenas a glicemia de jejum, consideramos os seguintes valores como padrão:
• glicemia normal: 70 a 99 mg/dl
• glicemia de jejum alterada: 100 a 125 mg / dl
• diabetes melitus: maior ou igual a 126mg /dl
Durante as avaliações clínicas (consultas), devemos enfatizar questões como história familiar de obesidade, diabete, hipertensão, doença cardiovascular. Dados sobre o tempo de existência das doenças são relevantes, pois o tempo de obesidade se relaciona com a incidência de diabetes, além da maior probabilidade de lesão em órgão alvo (rim, retina, cérebro e coração, por exemplo). Hábitos pessoais como etilismo, tabagismo, padrão alimentar e atividade física devem ser questionados. Sintomas como urinar muito, comer demasiadamente, sentir falta de ar, dor no peito, câimbras e formigamentos, devem ser investigados.
Em mulheres, o questionamento sobre os ciclos menstruais é importante, pois a síndrome dos ovários policísticos, caracterizada por irregularidade menstrual, está associada à resistência a insulina (um “pré diabetes”).
Ao exame físico, devemos dar ênfase ao peso e altura, capazes de diagnosticar a obesidade. Além disso, precisamos avaliar a distribuição corporal de gordura, através da medida da circunferência da cintura. Esta medida deve ser feita entre o ponto médio entre o último arco costal (costela) e a crista ilíaca superior (osso da bacia). Os valores não devem exceder 88cm para mulheres e 102cm para homens.
O restante do exame físico deve ser realizado como de costume.
Os exames complementares devem ser individualizados conforme o histórico de cada um, devendo englobar a determinação do perfil de açúcar e gordura através da glicemia de jejum, colesterol total e frações, triglicerídios, ácido úrico, enzimas hepáticas e microalbuminúria (perda de proteínas pela urina).
A glicemia de jejum, se maior que 100mg/dl, já é indicativa de alteração na tolerância a glicose. Utilizamos rotineiramente também a hemoglobina glicosilada, que nos dá informação sobre um tempo maior de evolução da glicemia.
O diabetes é um fator de risco independente de qualquer outro para o desenvolvimento de doença coronária (entupimento das artérias que levam sangue ao músculo cardíaco, dentre outras estruturas neste órgão). Portanto, quando estamos diante de um paciente diabético, estamos diante de alguém considerado de alto risco para desenvolvimento de síndrome coronariana aguda.
O tempo de evolução da doença, sua gravidade, predisposição genética dentre outros fatores, influenciam na ocorrência de complicações em órgãos alvo, e portanto, na gravidade do quadro em geral.
Tratamento
• controle do peso: é essencial para a redução do risco cardiovascular. Os métodos incluem intervenção na dieta, atividade física regular, mudança de hábitos (incluindo terapia comportamental), armacológico e cirurgia bariátrica.
• abandono do tabagismo: hoje dispomos de medicamentos bastante eficazes, já em plena utilização em nosso meio.
• tratamento medicamentoso oral: através de metformina, tiazolidinedionas, inibidores da alfa glucosidade (acarbose), medicação anti hipertensiva, terapia com estrogênios (reposiçaõ hormonal).
• insulinoterapia: novos tipos de insulina têm melhorado a qualidade de vida e o controle da glicemia; brevemente estará disponível também a insulina inalatória.
Convém observar que, o controle domiciliar dos níveis de glicose é importante para monitorar o êxito do tratamento. Este pode ser feito através de glicofita, que mede os níveis de glicose na urina, ou através de fitas reagentes, que medem a glicemia capilar (na ponta do dedo). Através dessas medidas, podemos ter noção da evolução e eficiência do tratamento instituído.
Classificação
Diabetes Tipo 1 - Há destruição das células beta do pâncreas, geralmente levando a deficiência absoluta de insulina:
• autoimune
• idiopática
Diabetes Tipo 2 - Varia de resistência a insulina com relativa deficiência da ação da mesma. Ocorre a deficiência da secreção de insulina com ou sem resistência a insulina .
Outros Tipos Específicos
• defeitos genéticos da função das células beta
• defeitos genéticos da ação insulínica
• doenças do pâncreas exócrino
• endocrinopatias
• induzido por drogas substâncias químicas
• infecções
• formas incomuns de diabetes imuno mediados
• outras síndromes genéticas associadas a diabetes
• diabetes gestacional
Indivíduos de alto risco
• obesos , especialmente com obesidade de tronco
• aqueles com pais ou irmãos com diabetes tipo 2
• pessoas acima dos 45 anos de idade
• aqueles com doença coronária, cerebrovascular ou vascular periférica ou ainda hipertensão
• portadores de dislipidemia
• mulheres com história de diabetes gestacional, ou que deram a luz a bebês com 4kg ou mais
• mulheres com ovários policísticos e que são obesas
• pessoas com diminuição de tolerância a glicose
Indivíduos com 2 ou mais desses fatores de risco devem ser rastreados, com o objetivo de diagnosticar e tratar precocemente.
Concluindo, o diabetes mellitus é um grupo de doenças metabólicas caracterizado pela hiperglicemia, que resulta de defeitos na secreção de insulina, ação da insulina ou de ambos, sendo o tipo 2, o mais freqüente. Este corresponde a 85% dos casos entre os caucasianos, e a pelo menos a 95% dos casos em outros grupos étnicos.
Fontes consultadas:
- Tratado de Cardiologia da Socesp / 2005
- Textbook of Diabetes – Selected Chapters 3rd Edition. John C. Pickup Gareth Williams
"A saúde e o prazer são para o homem o que o sol e o ar são para as plantas". (Massilon)
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