Usar ou não usar álcool na limpeza doméstica?

Compartilhe! Facebook Twitter Pinterest

Ação desinfetante compensa o risco de acidentes com fogo?

Você já pensou se usar álcool na limpeza da casa traz mais riscos ou benefícios para a sua família? Desde 2002 diversas entidades da sociedade civil organizada reunidas na Frente Nacional de Combate aos acidentes com Álcool tentam convencer os brasileiros e os parlamentares do país de que o uso dessa substância deveria ser evitado.

O álcool é um produto altamente inflamável e dentro do ambiente doméstico, quando é usado na limpeza e para acender churrasqueiras, por exemplo, é um dos principais responsáveis por acidentes com queimaduras graves em adultos e crianças, segundo o médico Jorge Curi, vice-presidente da Associação Médica Brasileira. Ele ressalta que queimaduras geralmente envolvem situações graves, sequelas e recuperações demoradas, incluindo a realização de cirurgias múltiplas.

Risco de queimaduras

A repercussão de uma queimadura na vida de uma pessoa, principalmente em crianças, e o gasto elevado do sistema de saúde com a recuperação desses pacientes justificaria a suspensão da venda do álcool líquido nos supermercados, segundo a Frente Nacional de Combate aos Acidentes com Álcool. Curi argumenta que existem outros produtos para limpeza, mesmo de ambientes hospitalares, que têm desempenho eficaz e não são inflamáveis.

O médico infectologista Jean Gorinchteyn, do Hospital Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, comenta que em âmbito doméstico o álcool funciona como desinfetante e não desinfectante, ou seja, sozinho não tem poder de aniquilar as bactérias de superfícies e utensílios. Por esse motivo ele não é insubstituível, pois outros produtos químicos de limpeza podem produzir os mesmos efeitos. Jean ressalta, no entanto, que quando se fala na higienização das mãos, o álcool em gel 70 graus ainda é o produto mais eficaz e deve ser associado à lavagem com água e sabão.

Na próxima página saiba o que os testes da Proteste disseram sobre os riscos representados pelo álcool, as condições das embalagens e o que os defensores do uso do álcool na limpeza doméstica argumentam.

Medidas educativas são necessárias

Em junho de 2007 diversas marcas do produto disponíveis no mercado nas versões em gel e líquido foram testadas pela Proteste - Associação Brasileira de Defesa do Consumidor. O teste constatou que os álcoois com graduação de 46 a 65 graus exterminaram entre 98 e 99,6% dos microrganismos, o que, segundo a Proteste, é comparável ao resultado de outros produtos de limpeza bactericidas. A avaliação também indicou que uma chama de 26 graus de temperatura é suficiente para levar o álcool à combustão, além do fato de que o gás desprendido pelo produto pode incendiar ao contato com o fogo.

Outra constatação foi que as embalagens nas quais o produto é vendido também aumentam os riscos de acidentes, pois não trazem travas de segurança para impedir que crianças possam abrir e ingerir o conteúdo. Além disso, a boca larga dos recipientes dificulta a dosagem na hora do uso. Segundo a Frente Nacional de Combate aos Acidentes com Álcool, a versão líquida da substância agrava os acidentes justamente porque ela se alastra rapidamente pelo corpo e pelo ambiente. Os testes da Proteste apontaram que nesse quesito o álcool em gel é mais seguro, pois demora mais para se espalhar.

Venda do álcool já foi proibida

Em 2002, a venda do álcool líquido chegou a ser proibida por uma resolução da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, posteriormente derrubada na Justiça. Para a Abraspea, Associação Brasileira dos Produtores e Envasadores de Álcool, a proibição da venda do álcool para o consumidor doméstico faria com que o comércio ilegal aumentasse e, com isso, subissem também o número de acidentes. Ary Alcântara, consultor da associação, afirma que os acidentes com álcool acontecem em contextos em que outros fatores de risco são determinantes, como uma pessoa sob efeito de bebidas alcóolicas ou deixar o produto ao alcance de crianças.

"Os acidentes não ocorrem por causa da dona de casa que usa o álcool na limpeza, mas por causa das pessoas embriagadas na churrasqueira", menciona. Ele também ressalta que existem consumidores que, como não podem comprar álcool 92 graus nos mercados, vão buscar o produto direto nas bombas dos postos de combustíveis. "Se não tiver álcool no mercado vai estimular essa situação", argumenta Ary.

O consultor da Abraspea também destaca que as empresas do setor têm investido no desenvolvimento de embalagens, mas ainda não chegaram a nenhum tipo de recipiente mais seguro do que o usado atualmente. Para a associação, ao invés do restringir a venda do álcool deveria se investir em campanhas educativas. De acordo com Ary Alcântara, as embalagens atualmente trazem informações sobre a maneira correta de usar e armazenar o álcool.

Na página a seguir, veja mais argumentos sobre porque usar ou não o álcool na limpeza doméstica.

Preço acessível

O médico Jorge Curi acredita que medidas educativas sozinhas não seriam suficientes para reduzir os acidentes. No geral, a Frente Nacional de Combate aos Acidentes com Álcool pede a votação no Congresso do projeto de lei que restringe a venda do álcool, a revisão das regras de comercialização do produto pela Anvisa, a criação de uma política de combate e prevenção do uso do álcool em ambiente doméstico e a criação de cadastro nacional para que se saiba quantas pessoas sofrem anualmente acidentes desta natureza.

Estatísticas sobre acidentes

Os dados sobre pessoas vítimas de acidente com álcool no país não são exatos. Segundo o Ministério da Saúde, 7.271 pessoas foram internadas por causa de queimaduras em 2011. O ministério informa que esse número representa acidentes com substância inflamável, o que inclui álcool, gasolina, diesel, querosene, etc, e que não há um recorte exclusivo para os acidentes causados por álcool. De acordo com a Ary Alcântara, os dados reunidos pela Abraspea a partir do Datasus, que reúne os números e natureza das internações no Sistema Único de Saúde, as vítimas de queimaduras por álcool seriam cerca de duas mil.

Os defensores da proibição do álcool também explicam que o Brasil é um dos poucos países do mundo em que a comercialização da substância é permitida. O representante das empresas produtoras de álcool rebate que o produto não é restrito em outros países porque não é abundante como no Brasil e comenta também que o uso do álcool na limpeza é popular no país por causa de seu preço, mais acessível do que os outros produtos de limpeza.

Divergências à parte, o uso do álcool em casa, seja para a limpeza ou outros fins, demanda ao menos alguns cuidados de segurança. Entre as orientações da Proteste, estão o cuidado para manter o produto longe do alcance de crianças e animais, não manusear o álcool próximo ao fogo, não armazená-lo em locais quente e não reutilizar as embalagens.

Você sabia que os produtos de limpeza também podem ser ecológicos?

Tags:

Comentários

Seja o primeiro a comentar nesse post!

Ir para o topo